Buscando – Carmen da Mota

Carmen da Mota

Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração.

Jeremias 29:13

Minha família era pobre, e meus pais labutavam com bastante dificuldade, mas éramos bem unidos. Meu pai começou a frequentar o centro espírita, e as coisas mudaram. Havia muito atrito e divergência entre meu pai e minha mãe. Até hoje, não entendo tudo o que aconteceu, pois era muito pequena. Quando eu tinha aproximadamente seis anos de idade, minha mãe falou com ele, e os dois se separaram. Não foi muito fácil suportar o dia em que meu pai preparou as malas. Naquele dia, ele chamou meu irmão caçula e eu e disse: “Eu vou para nunca mais voltar”. Doeu muito em meu coração ouvir estas palavras de meu pai. Depois disto, nunca mais o vi. Ele saiu, porém minha mãe foi uma lutadora e continuou incentivando os filhos a seguirem corretamente a religião católica apostólica romana.

No início, foi difícil! Tivemos muitas necessidades, mas nos esforçamos e, logo que começamos a crescer, fomos muito incentivados a trabalhar. Começamos a ajudar em casa. Eu cuidava de minha avó e do irmão caçula e me dedicava aos estudos, enquanto minha mãe e as irmãs mais velhas trabalhavam fora. Quando crescemos tudo mudou, pois todos tivemos de conciliar afazeres domésticos com um trabalho que aumentaria a renda familiar e nos proporcionaria condições para ajudar pessoas necessitadas. Minha mãe sempre enfatizava o seguinte: “Vamos lutar e vencer!” Ela era bem animada e sempre procurava levar a vida à frente, como se nada tivesse acontecido.

Aos onze anos, fui preparada para a primeira comunhão. Fiquei muito feliz com essa comemoração. Em meu coração havia um ardente desejo de servir melhor a Deus, mas não sabia como, especialmente porque era gaga. Um dia, entrei em meu quarto, ajoelhei-me, não rezei ave-maria ou santa-maria, mas orei ao Senhor . Clamei do fundo do coração, pedindo que Ele me ajudasse a falar corretamente como toda criança; eu daria a minha voz e toda a minha vida para servi-Lo e amá-Lo. Deus me ouviu e respondeu, pois comecei a falar corretamente. Ele também não se esqueceu da minha promessa de que Lhe daria tudo. Então, depois de ter feito a primeira comunhão, eu queria fazer mais para Deus.

Comecei a dar aulas de catecismo para as criancinhas e aos operários de fábricas que se interessassem. Na hora do almoço, eu levava o catecismo e ensinava-lhes como permanecer firmes na religião e fazer o melhor para Deus. Passei também a cuidar da igreja, arrumando os altares, ajudando a limpar e decorar com flores e enfeites. Não achando isso suficiente, tomei-me uma filha de Maria. Foi grande minha alegria quando recebi a fita de pretendente. Foi uma fita pequena e azul. Depois, recebi uma fita maior que era de aspirante, e finalmente, a fita que me designava o título de filha de Maria.

Agora eu pensava que estava mais preparada para servir a Deus.

Não demorou muito para eu perceber que ainda havia um vazio dentro de mim.

Saindo da igreja católica em uma manhã de domingo, conversando com algumas colegas, ouvi uma delas dizer que o melhor meio de servir a Deus era entrando para o convento. Todas as outras concordaram, mas eu nada disse. Embora a princípio anuísse com o que diziam, em minha mente, porém, avultavam os obstáculos à minha entrada para o convento. Eu pertencia a uma família pobre e precisava levar um dote que envolveria uma importância bem alta em dinheiro. Também era necessário levar um grande enxoval. Além disso, eu era negra. As franciscanas não me acolheriam com facilidade, para que eu recebesse o hábito. Eram tantos os empecilhos! Quanto ao dinheiro poderíamos dar um jeito, mas eu nunca poderia mudar minha cor. Apesar de tudo, não desanimei e, dois anos mais tarde, entrei para o convento das franciscanas.

No convento

Para alcançar este alvo, rezei muito e me submeti a muitas penitências. Porém, eu estava ali, não para receber o hábito, que, por causa da cor de minha pele, eu não podia, mas para atingir a idade suficiente e aprender muitas coisas. Então, mais tarde ingressaria em outro convento de ordem religiosa, onde seria possível realizar o grande sonho — tornar-me freira para servir melhor a Deus. Até chegar a esse ponto, sofri muito! Tive de deixar minha querida mãe, irmãos, amigos e colegas que frequentavam nossa casa. Apesar disso, estava satisfeita.

Tudo me parecia tão lindo e belo, porque em parte estava realizando o grande desejo de minha alma. Entretanto, não foi preciso muito tempo para notar que no convento eu não estava servindo ao Senhor, como era o meu desejo. Ali me sentia servindo mais às criaturas do que ao Criador. A disciplina do convento era rigorosa.

Todas deviam estar de pé às quatro e meia da manhã, quando começávamos a colocar tudo em ordem. As tarefas eram divididas de maneira que duas ficavam na cozinha e as demais dirigiam-se à capela para rezar o ofício. Uma hora depois, celebrava-se a missa com a comunhão, onde todas deveriam estar presentes. Às oito horas, retornávamos às nossas tarefas e deveríamos realizá-las em absoluto silêncio, pois era proibido conversar durante o dia. Geralmente, às dezenove horas, a superiora nos dirigia num breve período de recreio. Tudo era controlado por ela. Ninguém podia fazer coisa alguma, além do que ela ordenava. Às vinte horas, ao badalar dos sinos, devíamos iniciar as orações finais, pois uma hora depois as luzes seriam apagadas, e só me restava esperar outro dia igual ao anterior. Na monotonia de meus dias no convento, percebi que meu sonho de estudar jamais se cumpriria. Só havia tempo para trabalhar e rezar. Tempos depois, a pedido de várias moças, a madre superiora determinou uma hora de estudo por noite. Mas, estávamos tão cansadas, que pouco podíamos aproveitar. Maior foi minha desilusão, quando algumas freiras deixaram escapar expressões de ciúmes e inveja. Elas se ressentiam do tratamento afetuoso que a superiora às vezes me dispensava e do fato que eu era sempre escolhida para recebê-la na estação rodoviária, ao retornar ela de alguma viagem. Mas, haveria de receber choques maiores. O meu único consolo eram duas freiras que se tornaram minhas amigas, a irmã Josefina, uma moça culta que há doze anos estava no convento, e a irmã Sebastiana. Eram as únicas que tinham a confiança de revelar-me algo sobre o que se agitava em seus corações. Com uma ou outra exceção, todas as demais freiras eram um grande mistério para mim. A grande amiga Josefina me fez conhecer melhor a intimidade do convento e da igreja romana. Calejada daquela vida, seu desespero crescia com o passar dos dias; e nisso era acompanhada pela irmã Sebastiana. “Já não aguento mais essa vida. Estou desesperada!”, ela dizia. Eu perguntava o que estava acontecendo, e ela respondia que nada podia dizer.

Certa manhã, ao despertar, descobri que ambas haviam fugido do convento. Um imenso desapontamento invadiu-me. Além disso, a madre superiora suspeitou que eu as houvesse ajudado na fuga. De nada adiantaram meus protestos de inocência. A madre superiora insistia em acusar-me, pois havia circunstâncias que pareciam agravar as suspeitas contra mim. Ao levantar-me pela manhã, para acender o fogo, o que era meu dever, não encontrei os fósforos na gaveta da mesa da cozinha, como de costume. Para minha desgraça, fui procurá-los no ambulatório. Era restritamente proibido à qualquer freira circular em uma área de trabalho que não fosse a sua. Quando estava no ambulatório, fui surpreendida por uma das irmãs que me acusou de culpa pela fuga das freiras, Sebastiana e Josefina. Depois deste acontecimento, fui separada das demais e suspensa das aulas por um ano. Como castigo, foi-me proibido conversar e tive de fazer as tarefas mais difíceis, tais como: cozinhar, cuidar da lavanderia e alimentar as galinhas.

Por muitas vezes trabalhei até à madrugada para concluir minhas obrigações. Houve ocasiões em que, ao ser tocado o sinal para se levantar, eu ainda não me havia deitado. Durante aqueles dias horríveis, enquanto realizava minhas tarefas na lavanderia, ajoelhava-me perante um crucifixo que ali havia e dizia: “Senhor, estou procurando o caminho, mas, ainda não o encontrei. “Chorava desesperada, buscando um pouco de apoio e consolo, que nunca vinham.

Durante esses dias, minha mãe adoeceu e mandou chamar-me para visitá-la no hospital, mas não me permitiram sair. A superiora afirmava que eu deveria rezar a Deus, pois minha vida pertencia somente a Ele, e que não deveria voltar atrás. Só me restava rezar com fervor pela saúde de minha mãe. Um dia, chegou ao convento uma de minhas irmãs, falando que eu teria de partir imediatamente, se quisesse alcançar minha mãe com vida. Obtive a licença de sair por duas horas. Quando cheguei ao hospital, minha mãe já pensava que eu não a veria em sua última hora. Grande foi meu sofrimento e amargura naquele momento. Ali estava a pessoa que eu mais amava e que havia dedicado sua vida a mim, partindo para a eternidade sem que nada eu pudesse fazer por ela. Voltei ao convento com o coração dilacerado, para continuar a vida árdua de labor e penitência.

Depois disso, a madre superiora resolveu separar várias religiosas, distribuindo-as em diversos conventos. Fui enviada para um convento em Juiz de Fora. Apesar do rigor que ali imperava, fui tratada com mais humanidade, cuidaram de minha saúde e muito me ajudaram.

Todavia, as penitências desse convento eram cruéis.

Por muitas vezes, levantávamos à uma hora da manhã para irmos à capela, cumprir a penitência da maria-antiga. Tão severa era esta penitência, que era proibido relatá-la, sob pena de pecado mortal, mesmo que saíssemos do convento. Essa penitência começava com uma oração. Em seguida, a superiora dizia que Jesus levou bofetadas no rosto; portanto, todas deveriam levar bofetadas. Jesus foi açoitado, e recebíamos açoites. Jesus andou de joelhos; devíamos nos arrastar por toda a capela, até que os joelhos estivessem feridos e sangrados. Jesus ficou de braços abertos, na cruz, durante seis horas. Devíamos também ficar de braços abertos e imóveis, por aproximadamente uma hora, rezando o rosário. Essa penitência supostamente buscava a conversão dos pecadores, o alívio das almas do purgatório e a salvação de nossa própria alma. Com essa prática, imaginávamos que as almas do purgatório precisavam de algo assim para serem salvas. A madre disseme que, após algum tempo de experiência e obediência aos superiores, eu poderia ficar ali para receber o hábito e fazer os votos. Mas, primeiro, eu deveria visitar meus familiares pela última vez, pois, ao retornar, nunca mais sairia. Recebi um mês de licença, o que foi algo excepcional. Aproveitei esse tempo para ensinar o catecismo à algumas crianças das quais eu gostava muito. Aproveitei para levá-las a Petrópolis, à capela de Nossa Senhora de Fátima, cujo templo eu ajudara a construir em minha infância.

Sinceramente errada

Em Petrópolis, encontrei o frei Dom José Pereira de Castro, que fora o meu diretor espiritual por muitos anos. Depois dos cumprimentos, eu disse que estava em um convento de clausura, para onde voltaria em breve, a fim de permanecer durante o resto de minha vida, intercedendo pela conversão dos pecadores e por alívio às almas do purgatório. Este frei era um homem bastante idoso e dedicado à religião. Ele me propôs ajudá-lo na abertura de um convento para freiras ali mesmo, em Petrópolis.

A princípio rejeitei a proposta, mas ele continuou argumentando sobre a carência que a cidade tinha de moças dedicadas. Elas poderiam auxiliá-lo a rechaçar o trabalho dos protestantes, que estava crescendo muito naquela cidade. Esse último argumento me deixou deveras interessada. Assim tornei-me missionária da Fundação das Freiras Missionárias. Estava incumbida de subir às favelas e aos lugares distantes, para ensinar o catecismo, visando principalmente aos lugares onde havia trabalhos dos protestantes.

Auxiliava os pobres, levando-lhes roupas e alimentos. Fazendo isso, podíamos impedir a entrada dos protestantes nos locais onde já estávamos fornecendo ajuda. Por várias vezes, devido ao meu zelo contra os protestantes, fiquei assentada ao lado de algum enfermo até que ele morresse, para que não ouvisse explicação da Bíblia por parte de algum crente. É claro que em minha ignorância eu agia dessa forma, pois eu mesma não conhecia a Bíblia.

Em dois meses, conseguimos cercar a cidade com quarenta e dois centros de catecismo, para catequizar crianças, jovens e adultos. Naquela ocasião, foi um grande trabalho da igreja católica, cuja finalidade era impedir que os evangélicos proliferassem na cidade. Por esse motivo, procurei o patrão de um homem pobre que tinha seis filhos. Eu conhecia bem a sua família, porque éramos compadres. Um dia, ele ouviu os crentes cantando em uma pequena praça. Aquilo tocou o seu coração, e mais tarde recebeu a Cristo como Salvador . Não gostei do que aconteceu. Por isso, procurei o patrão daquele homem, que era um congregado mariano, e contei tudo que acontecera. Assim, ele foi despedido do seu emprego. Depois, soube que sua família estava passando por grande necessidade. Porém eu estava muito magoada com meu compadre e com raiva. Não me condoí e pensava: “Deixa os protestantes cuidarem deles”.

Mais tarde, fiquei sabendo que os protestantes estavam visitando os prisioneiros na cadeia. Pensei: “Vamos lá também!” Naquela semana levamos cigarros e sanduíches aos encarcerados, procurando anular o efeito das visitas dos crentes. No domingo seguinte, quando havia distribuído santinhos entre os presos, percebi que na mesinha de cada um deles estavam vários folhetos e um livro de capa preta. Apesar de saber do que se tratava, perguntei: “Que livro é este?” Eles responderam: “É o livro que os crentes deixaram para nós”. Protestei: “Mas, este livro é diabólico! Aquele que tem este livro só recebe  desgraças e a maldição de Deus. Entreguem-me estes livros e fiquem com uma medalinha de Nossa Senhora. Ela vai ajudá-los”. Saímos, carregadas de Bíblias e folhetos. Senti satisfação em rasgar e queimá-las todas. No entanto, quando restava apenas um livro, observei que havia nele a ilustração de dois jovens com fardos nas costas seguindo um caminho. Por baixo da ilustração estava escrito: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28). Deus falou comigo naquele instante! Senti algo estranho e incompreensível. As palavras diziam: “Vinde a mim “, mas eu já havia feito isso e entregara tudo ao Senhor. Não podia entender o que Ele ainda poderia querer de mim. Pensei: “Sou católica bem firme. Certamente posso ler alguma coisa desse livro sem sofrer nenhum mal”.Tive um pouco de curiosidade em saber o que os crentes estavam extraindo dali. Comecei a lê-lo. Após a leitura de algumas páginas, senti-me tão bem, que até esqueci tratar-se de um livro dos crentes. Ao lembrar- me da origem do livro, meu coração bateu fortemente de susto, porém não tive coragem de destruí-lo. Preferi guardá-lo.

Um pequeno missionário de olhos azuis

Uma das coisas que nunca parei de fazer foi dar aulas de catecismo para crianças. Sempre que estava em minha sala de aula, passava um menino loiro, de olhos azuis. Ele se chamava Hélio e deveria estar com aproximadamente dez anos. Eu sabia que ele pertencia a uma família evangélica. Olhando para aquele menino, eu sempre pensava que ele poderia ser padre. Era tão inteligente e mostrava tanto respeito! Imaginava quão bom seria se os pais dele aceitassem a doutrina da igreja católica, se tornassem católicos e o menino seguisse a carreira de padre.

Um dia, quando ele estava passando em frente à sala de aula, perguntei: “Hélio, você gostaria de estudar o catecismo?” Ele disse: “Vou pedir à minha mãe. Se ela deixar, eu virei”. Para minha surpresa, o menino foi à sua casa, voltou e sentou-se. A aula falava sobre Maria e o poder que ela possui. Eu disse: “Qualquer coisa que queiramos, devemos pedir a Maria, pois ela tem muito poder e por seu intermédio vamos a Jesus”. O menino levantou a mão e perguntou : “Professora, onde está escrito na Bíblia que por intermédio de Maria vamos a Jesus?” Fiquei muito embaraçada, porque não conhecia a Bíblia.

Atualmente lêem a Bíblia nos conventos, mas naquela época não sabíamos absolutamente nada a respeito do que a Bíblia diz. Os padres e as freiras não a estudavam.

Quando o menino fez aquela pergunta, fiquei em uma situação muito embaraçosa. Respondi que estava no catecismo e que depois da aula conversaríamos mais sobre aquele assunto. Continuei a aula, falando sobre a importância de pedir as coisas aos santos, que nos podem ajudar, levando nossas petições a Deus. Então ele me disse: “Professora, a senhora já leu Êxodo 20, na Bíblia?” Esse menino tão jovem conhecia maravilhosamente bem as Escrituras. Pudessem todos os pais ensinar a seus filhos as Escrituras, para que a conhecessem, como esse menino a conhecia.

Depois que Hélio começou a assistir as aulas, nunca mais dei aula em paz, porque ele fazia muitas perguntas, uma após a outra, e todas foram feitas com muito respeito e sabedoria. Ele estudou e decorou todo o catecismo, e ainda continuou firme em sua igreja. Depois que saiu de minha classe, se eu já me encontrava perturbada, mais perturbada fiquei. Não conseguia crer em imagens, não podia crer que, pedindo alguma coisa a um santo, ele intercederia junto a Deus. Conforme aquele menino me ensinara, eu deveria  falar diretamente a Deus, em vez de pedir a Maria ou aos santos. Era uma criança, mas sabia o que estava fazendo.

Quando a mãe de Hélio permitiu que ele entrasse naquela aula de catecismo,  estava enviando um missionário, visto que ela o havia preparado para falar de Cristo. Mesmo com pouca idade, Hélio foi o primeiro missionário em minha vida. Dou graças a Deus pela vida dele. Dez anos depois de convertida, voltei para visitar a igreja deste menino. Ele estava casado e participando ativamente de sua igreja. Naquele dia, tivemos um tempo de comunhão maravilhoso. Porém, na época de sua infância, retomei às aulas de catecismo, mas já sem paz para continuá-las. Achei conveniente conversar com o bispo de Petrópolis, a fim de encontrar ajuda, pois nem mesmo da comunhão eu estava conseguindo participar. Estava me sentindo tão pecadora, que não podia receber a hóstia. Ao expor minha situação ao bispo, ele me entregou um rosário, pedindo que eu rezasse bastante, para Deus me fortalecer e abençoar. Fiquei feliz com o recebimento do rosário, visto que poucos possuíam um rosário de 1950, abençoado pelo papa. Eu fazia promessas a todos os santos, para retirar o peso que sentia dentro de mim. Rezava o rosário e fazia tantas promessas, que não conseguia lembrar-me de todas. Quando me ajoelhava diante daquelas imagens de santos, sentia que eram frias e mortas. Por mais que lhes rogasse, sabia que não estavam me ouvindo.

Voltei a falar com o bispo e alguns padres, pedindo-lhes ajuda, porém eles não podiam me ajudar mais. Vendo que não conseguia paz nem descanso para minha alma, tão intenso se tornou o meu desespero que um dia resolvi seguir o exemplo de minhas amigas. Fugi do convento! Para dar esse ousado passo, tive de lutar comigo mesma, durante muito tempo de indecisão e sofrimento.

Início da vida fora do convento

Começou, então, a minha odisséia. Chegando ao Rio de Janeiro, ninguém queria me dar emprego, pois não sabiam de minha procedência. Quando me perguntavam de onde eu viera, não podia responder, pois imenso era o medo de que a informação chegasse ao convento. Um dia entrei na igreja de Santa Teresa, santa que eu julgava ser muito poderosa. Ajoelhei-me, mas não dirigi-lhe nenhuma reza. A minha oração foi diretamente a Deus. Pedi-lhe que me mostrasse o caminho e arranjasse um lugar para eu ficar. Saindo dali, sentia muita fome e sede, e meu dinheiro era suficiente apenas para tomar um ônibus, se precisasse chegar a algum lugar.

Parei diante de uma lanchonete, onde havia pessoas comendo e bebendo; eu só podia me contentar em olhá-las. O proprietário do bar aproximou-se de mim e perguntou se eu estava com fome e desejava comer alguma coisa. Encabulada com a falta de dinheiro, respondi que não. A presença dele me incomodava, pois não estava acostumada a conversar com homens na rua. No convento, éramos advertidas a não nos aproximar, conversar ou mesmo olhar para qualquer homem. Parecendo adivinhar a minha situação, este senhor saiu e voltou com alguns pastéis e um suco, os quais consumi logo que ele se retirou.

Depois de caminhar algum tempo, resolvi bater em uma casa e pedir água. A senhora que atendeu, já idosa, foi muito gentil comigo. Pediu que entrasse em sua casa, o que aceitei com prazer. Não apenas serviu a água que pedi, mas também me ofereceu um farto café. Já anoitecendo, eu me preparava para ir embora, quando ela me perguntou para onde iria. Não pude responder de imediato. Percebendo que alguma coisa me incomodava, pediu-me que lhe revelasse o que se passava comigo. Esta senhora me inspirava confiança e respeito, por isso, expus-lhe, minha situação. Fui convidada a ficar morando com ela e com o neto de 17 anos, até que arrumasse um emprego. Fiquei grata por ver a mão de Deus me dirigindo e abençoando naquela situação.

Continuei à procura de emprego. Percebi, entretanto, que as pessoas, ao observarem minha estranha vestimenta, não se animavam em oferecer uma colocação. Ao retornar à casa onde eu estava, conversei com algumas empregadas domésticas. Perguntei onde poderia arrumar trabalho. Disseram-me que deveria comprar o Jornal do Brasil.

Prossegui interrogando onde encontraria os classificados no jornal. Percebendo a minha ignorância em relação à informação, elas deram tremendas gargalhadas. Mesmo zombando, ajudaram-me a recortar um anúncio.

Dirigindo-me ao local mencionado no jornal, fui informada que a vaga já havia  sido preenchida. Desapontada, voltei para casa. Alguém propôs arranjar-me outra roupa, afirmando que as que eu tinha pareciam de alguém que acabava de fugir de um convento. Com novos trajes, comecei novamente a procurar um emprego, pensando que teria mais sorte. Caminhando próximo a um cemitério, percebi logo que não estava tão bem vestida quanto imaginava. Ao me aproximar de dois jovens, ouvi um deles insinuar que eu parecia um defunto ambulante. Apesar disso, naquele mesmo dia, consegui trabalho como auxiliar em uma escola de educação infantil. Foi interessante que, embora não preenchesse os

requisitos exigidos para a função, fui contratada. Exigiam que a pretendente ao cargo soubesse falar inglês, e eu não sabia absolutamente nada! Fui muito bem recebida neste emprego, tive um bom salário, ganhei as refeições e, ainda, a diretora me providenciou um quarto. Apesar de gostar desse trabalho, percebi que a vida moral do ambiente não era boa, e, além disso, a diretora era espírita. Devido a experiência com meu pai, que acabou dividindo o nosso lar, ao se envolver com o espiritismo, eu não queria nada com esta seita.

Descobertas em Itajubá

Em um dia de folga, enquanto esperava o ônibus, uma senhora se aproximou e perguntou se eu conhecia alguém que gostaria de trabalhar como governanta para a sobrinha dela. Respondi negativamente. A senhora perguntou se eu não poderia ajudá-la durante uns quinze dias, pois a sua sobrinha estava para se mudar. Sendo mãe de cinco filhos, estava realmente precisando de ajuda. Aceitei a proposta e acertamos o emprego.

Comecei a ajudar a dona da casa. Um dos filhos dessa família, que estava em Itajubá na casa dos avós, morreu em um acidente com cavalo. Diante disso, a família teve de adiar a mudança, e o casal partiu imediatamente para o local do acidente, deixando sob meus cuidados a casa e os demais filhos. Ao retornarem, não tive coragem de deixá-los e continuei residindo com eles por mais tempo.

Certa vez, quando saía para ir a igreja, encontrei uma religiosa, conhecida em Petrópolis. Ela me repreendeu, afirmando que eu fizera um papel muito feio, partindo e abandonando tudo. Retruquei dizendo que não tinha feito nada feio, mas havia saído porque achava necessário. Ela anotou o meu endereço, e, poucos dias depois, apareceu um padre, pedindo que eu retornasse ao convento, pois seria recebida de braços abertos. Falei ao padre que, de imediato, não poderia deixar aquela família, mas retornaria ao convento assim que pudesse, visto que estava convencida de haver cometido um grande erro. Deus, entretanto, tinha outros planos para mim.

Dias depois, uma senhora crente passou onde eu estava e me presenteou com uma Bíblia. Peguei-a com as pontas dos dedos, por saber que se tratava de um livro excomungado pelos padres. Guardei-a em meu quarto, mas não a toquei por oito dias.

Cheguei até mesmo a rezar, pedindo a Deus que me perdoasse por ter aceitado semelhante livro. Oito dias mais tarde, a senhora crente voltou e perguntou se eu tinha começado a ler a Bíblia. Pedi que aceitasse a Bíblia de volta, vendo que eu não podia ficar com  semelhante livro, por ser católica apostólica romana. Mesmo assim, ela me convidou para ir à sua igreja. Disse-lhe que iria apenas se ela me buscasse e me trouxesse de volta. Pensei que ela não aceitaria, mas no dia marcado ela apareceu.

Observei em sua igreja que todos cantavam e que o ambiente era muito diferente daquele com o qual eu estava acostumada. Após a mensagem o pastor disse que, se a pessoa não entregasse naquela noite o coração a Jesus, iria para o inferno. Eu ria diante do que o pastor pregava, pensando que jamais aceitaria semelhante convite. Ele falava tudo aquilo, imaginava eu, porque não sabia que eu era uma católica apostólica romana e que nunca deixaria a minha fé e me converteria a outra religião. Nisso imitava a minha mãe,   em seu zelo pela religião católica. Conforme prometera, aquela senhora me levou de volta para casa e insistiu que eu voltasse à sua igreja. Respondi que não, pois era uma católica apostólica romana e jamais me converteria a outra religião.

Um dia, no Rio de Janeiro, um rapazinho passara vendendo livros e comecei a comprar. Uma vez aparecera vendendo somente Bíblias católicas, e adquiri uma. Pensei que agora, possuindo uma Bíblia católica, poderia lê-la para combater o trabalho protestante que, em minha opinião, estava invadindo o mundo. Assim, naquela noite, terminando meu trabalho cotidiano, comecei a ler a Bíblia católica. Permaneci lendo-a até a madrugada. Eu me sentia como alguém faminto diante de um banquete apetitoso! Pela primeira vez, senti alegria verdadeira.

Dias depois, o padre voltou a visitar-me e disse que eu parecia estar mais alegre. Concordei com bastante entusiasmo, dizendo que minha alegria resultava da leitura das Sagradas Escrituras. Ele me disse que a Bíblia era um livro muito difícil e que, sem o acompanhamento de um padre, sua leitura poderia trazer confusão à minha mente.

Argumentei que nada parecia difícil, mas ele me aconselhou a parar a leitura, pois com certeza eu teria dificuldades na interpretação. Ele soube que eu iria para Itajubá com aquela família; e não gostou muito disso, mas, sabendo que eu voltaria em dois meses, concordou. Deus estava cuidando de cada passo e de cada detalhe, para levar-me a conhecer o Senhor Jesus Cristo. A leitura da Bíblia me deixava perplexa.

Certa noite, saí de casa abatida, sem paz no coração; visitei diversas igrejas e vários amigos. Quando voltei, peguei novamente a palavra de Deus, a qual eu fora proibida de ler e abandonara por alguns dias, e pensei: “Que importa que eu leia a Bíblia; ela é a Bíblia católica, a Bíblia da minha religião; eu preciso lê-la, para conhecê-la”.

Naquela noite, parei de ler a Bíblia somente às três horas da manhã. A minha alma foi invadida de satisfação novamente e, daquele dia em diante, nunca mais deixei de ler aquele livro santo. Cheguei ao capítulo vinte do livro de Êxodo, que fala sobre as imagens de escultura; foi uma surpresa, pois eu sempre fora contrária aos protestantes por causa das imagens, mas agora achava escrito em minha própria Bíblia católica: ” Não farás para ti imagem de escultura, não as adorarás, nem lhes darás culto”.

Indo à missa, mostrei essa passagem ao vigário, porém ele respondeu que aquela não era a Bíblia verdadeira, mostrei-lhe e disse-lhe que era a Bíblia católica. Ele argumentou que isto era válido somente na época do Antigo Testamento, mas que agora na época do Novo Testamento poderíamos ter imagens. O padre deixou-me com dúvidas; eu, que não tinha conhecimento algum, teria de lutar para saber mais sobre o assunto.

Chegando a Itajubá, imediatamente procurei pessoas ligadas à igreja católica e às filhas de Maria, bem como senhoras ligadas ao apostolado da oração e as moças da Juventude Operária Católica. Comecei a dar aulas de catecismo para crianças. Eu não podia ficar parada, tinha de fazer alguma coisa. Certa vez perguntei às filhas de Maria, se naquela cidade havia muitos protestantes; elas responderam afirmativamente. Contei-lhes que na cidade de Petrópolis também havia bastante protestantes e que em dois meses havíamos fundado quarenta e dois centros de catecismo, conseguindo enfraquecer alguns trabalhos deles. Disse-lhes também que até na cadeia fomos levar santinhos e alimentação para os prisioneiros. Depois, começamos a fazer teatro e várias atividades para os jovens. Um dia, chegando à casa de uma costureira, que era muito católica e fazia roupas para nosso teatro, comentei que, naquele mês, estava preparando uma festa e havia tantas coisas a fazer, que eu não sabia se conseguiria realizar tudo. Estavam presentes ali duas moças que se propuseram a ajudar-me. Ao saírem as duas jovens, perguntei à costureira quem eram elas; ela respondeu-me que eram duas jovens crentes. A princípio, fiquei apavorada por receber auxílio de duas crentes, mas acabei me convencendo de que seria fácil convertê-las à fé católica.

Essas jovens chamavam-se Márcia e Déia, membros da igreja presbiteriana de Itajubá. Elas me ajudaram muito em todo o trabalho de limpeza do local e na confecção dos cartazes. A minha maior surpresa foi elas se prontificarem a vir no dia da festa, para ajudar em qualquer coisa secundária. Elas compareceram à festa, e, no final, agradeci-lhes, dizendo que estava impressionada com elas e que poderia ser procurada, caso elas precisassem de alguma coisa.

Novas Descobertas

Dois meses mais tarde, estava na feira quando encontrei uma dessas jovens. Ela disse-me que em sua igreja haveria uma festa para a mocidade e gostaria que eu comparecesse. Perguntei se a festa seria dentro da igreja, ela respondeu que não, seria no salão social. Consultei o vigário para saber se era conveniente eu ir; ele aconselhou-me que fosse, mas deveria tomar muito cuidado. Disse ele: “Os protestantes são piores do que goteira: pinga, pinga, até ensopar tudo”.

Ao chegar o dia da festa da mocidade, entrei no salão com um vestido, na verdade, um uniforme que usávamos até aos pés, um lenço na cabeça, meias compridas, bem grossas, e um grande crucifixo, pendurado ao pescoço. Quando entrei, os jovens olharam curiosos para mim, mas todos desviaram seu olhar para não me deixarem embaraçada. Um deles se aproximou e perguntou: “A senhora pertence àquela igreja do papa”. Respondi: “Eu sou católica apostólica romana, por quê?” Antes que ele me respondesse, alguém veio tirá-lo dali. Pensei que não deveria ter ido àquela festa, pois, nem ao menos chegara, um jovem viera falar-me a respeito da igreja do papa, como que tentando insultar-me. Todavia, quando assim pensava, abriu-se uma porta nos fundos do salão e apareceu uma senhora de cabelos brancos. Ela apertou-me a mão, dizendo: “Bem-vinda em nosso meio, esperamos que se sinta bem e volte muitas vezes para estar conosco”. Notei que aquela senhora tinha uma expressão de alegria no rosto; era algo realmente impressionante. No primeiro instante, percebi que gostei muito dela e pensei que deveria tomar cuidado para não amar os protestantes, pois eu não podia ficar tão amiga dos crentes.

Logo que ela desapareceu, perguntei às moças que me convidaram quem era ela.

Responderam-me: “É a esposa do pastor”. Não falei em voz alta, mas pensei comigo mesma: “Coitada! É a pior pecadora”.

Passados alguns momentos, ela voltou para convidar-me: “Você não quer me visitar na próxima semana, quarta-feira, em casa, para tomarmos um café com bolachinhas; aprendi a fazer umas bolachinhas deliciosas e gostaria que você viesse experimentá-las”.

Desculpei-me como pude, alegando muito trabalho, mas ela continuou: “Devemos deixar o trabalho de vez em quando e fazer uma visita aos amigos. Venha!”. Havia nela uma estranha atração; ela havia quebrado a minha resistência e me dominava com a sua simpatia. Não compreendia o poder de suas palavras; aquilo nunca havia acontecido comigo, mas ao mesmo tempo pensei: “Se eu fizer amizade com esta senhora, quem sabe um dia, a esposa do pastor se tornará uma católica apostólica romana e levará uma parte da igreja consigo”. Assim, na quarta-feira, preparei-me e fui à casa dessa senhora.

Andando pelas ruas, pensava o que devia ou não falar com ela. Quando a pessoa não conhece as Escrituras, não possui qualquer segurança. Chegando à casa do pastor, que se localizava ao lado da igreja, percebi que, pela primeira vez, eu estava entrando na casa de um pastor, a fim de tomar café com bolachinhas. O café com as bolachinhas estava delicioso, e ela não falou em religião. Conversamos sobre muitas coisas: contou que as filhas estavam estudando, falou sobre o trabalho dela na igreja, sobre a temperatura,  menos sobre religião. Desse dia em diante, eu sempre ia à casa do pastor e tomava café; às vezes nem tomávamos cafezinho, apenas conversávamos sobre o tempo frio ou calor, e ela me falava sobre vários assuntos, sempre deixando de abordar qualquer assunto religioso. Então, comecei a contar-lhe que gostava de ler a Bíblia e apreciava muito a sua leitura.

Então ela sugeriu: “Nesse caso, vamos ler a Bíblia”. Eu reagi: “Ah! mas eu não trouxe a minha, eu só leio na minha Bíblia! Na próxima semana, quando eu vier, trarei a minha Bíblia, assim poderemos comparar e ler juntas”. Ela disse: “Está combinado! Na semana que vem começaremos a ler a Bíblia”. Na semana seguinte, voltei e, desta vez, levando minha Bíblia.

Perguntas precisas e respostas inesperadas

O primeiro livro que Dona Blanche e eu começamos a ler foi o Evangelho de Lucas. Amei ler esses trechos da Bíblia com aquela senhora. Ela teve muita paciência comigo, nunca me criticou, nunca me insultou, sempre me tratou com muita paciência. Vendo que ela nunca discutia sobre questões religiosas, cheguei a pensar: “Não sei por que ela se cala! Os protestantes não falam porque sabem que conheço bem a minha religião e tenho todas as respostas que quiserem; estão com medo de mim. Agora, quem vai fazer perguntas sou eu; vou ‘encostar’ a esposa do pastor na parede”.

O padre da paróquia ficou sabendo que eu estava indo à casa do pastor, a fim de discutir sobre a Bíblia; eu mesma contei para ele. Falei que estava procurando levar a esposa do pastor para a nossa igreja. O padre ficou muito preocupado e começou a dar aulas sobre a Bíblia na igreja, à noite, uma vez por semana, às terças-feiras. Muitos congregados marianos e filhas de Maria reuniram-se ali para estudar a Bíblia, mas infelizmente perguntamos (sobre Êxodo 20 e João 14) várias coisas que ele não respondeu. Perguntei: “Padre, se a Bíblia nos relata que Jesus diz: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao pai senão por mim’, porque pedimos aos santos?” Ficávamos muitas vezes discutindo até tarde da noite com esse padre, e ele não tinha as respostas para nós. Mas aquela senhora, Dona Blanche, sabia tudo.

Dona Blanche era a esposa do pastor Mário Lício, da Primeira Igreja Presbiteriana de Itajubá. Ela sempre tinha as respostas porque usava a Bíblia; as respostas não eram dela, e sim da Palavra de Deus. Mas eu ainda não tinha certeza disso; portanto, na visita seguinte, disse-lhe: “Boa tarde, Dona Blanche! Hoje vim aqui não somente para tomar café com bolacha, mas também para fazer algumas perguntas”. Ela me respondeu, gentilmente: “Bem, pode perguntar; se eu não souber, procuramos na Bíblia. Além disso, hoje o meu marido está em casa é ele poderá nos ajudar”. Respondi: “Não é necessário, pois as perguntas são bem fáceis”. Em meu íntimo, estava rindo e pensando: ela vai ter dificuldade em responder .

Comecei perguntando: “Qual é a diferença entre a Igreja Católica e os protestantes?” Ela respondeu: “A diferença é muito pequena. Vocês têm um chefe; não  é?” “Sim”, respondi, “nós temos um chefe, o nosso chefe é o papa. Ele vive no palácio mais rico deste mundo, usa uma coroa de ouro na cabeça e dirige a igreja. Estou pronta a lutar e até mesmo a morrer por ele, para que se torne conhecido e seu poder aumente cada vez mais no mundo”. Após o que eu disse, ela falou: “Como já disse, a diferença é bem pequena”, e aquela senhora tinha lágrimas nos olhos, ao falar: “Nós crentes no Senhor Jesus Cristo também temos um chefe. O nosso chefe não tem coroa de ouro na cabeça, pois a coroa que os homens Lhe ofereceram era de espinhos”.

Daquele momento em diante, eu não tinha nenhuma palavra a dizer e passei a invejar os crentes. Então, o chefe dos crentes é Jesus Cristo, Aquele que morreu por nós na cruz. Era a Ele que eu sempre desejara servir, no entanto, não podia ficar irritada, porque eu mesma dissera que o papa era o meu chefe. Naquele dia, não quis conversar com Dona Blanche — eu estava derrotada. Voltei para casa, mas aquelas palavras martelavam-me os pensamentos: “O meu chefe é Cristo, o meu chefe não tem coroa de ouro, mas de espinho”. Por onde quer que eu andasse, aquelas palavras queimavam o meu coração, fazendo que eu visse claramente a diferença entre um chefe e outro; e não era pequena a diferença.

Voltei na quarta-feira seguinte com mais algumas perguntas. “Dona Blanche, por que os protestantes não gostam da bendita virgem Maria? Dizem que ela não é virgem e que ela teve mais filhos”. Ela respondeu: “Vou fazer-lhe uma pergunta, depois responderei a sua. Uma senhora casada perde algum grau de santidade por ter muitos filhos? A resposta tem de ser sim ou não”. Pensei por um pouco; anteriormente imaginava que seria fácil responder qualquer pergunta que os crentes me fizessem acerca de minha religião, mas agora percebia que não era tão fácil. Pensei: “Se eu disser que perde, estarei errada;  se disser que não, terei de concordar com os crentes”. Finalmente respondi negativamente, e ela continuou: “Pois bem, você tem a Bíblia nas mãos e não a conhece? Abra sua Bíblia em Marcos, capítulo seis; lá está escrito sobre este assunto. Ali está escrito sobre os irmãos de Jesus — “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de…” Fiquei impressionada ao ler nome após nome e, ainda, no fim do versículo li: “E não vivem aqui entre nós suas irmãs?” Eu estava desapontada, mas ela prosseguiu: “Quero fazer-lhe mais uma pergunta: você conhece o mandamento de Maria?” Ora, ela nunca me fizera pergunta alguma, e agora eu não queria ficar sem resposta. “Bem, conheço os dez mandamentos e os cinco mandamentos da igreja; conheço os sete sacramentos e cumpro todos eles”. Mas ela voltou ao assunto e disse: “Não é nenhum destes, estou perguntando sobre o mandamento de Maria. Você é tão devota a Maria, deveria conhecer o seu mandamento. Você pode responder? ” Não pude dar tal resposta, e para mim foi muito humilhante ter  de confessar à esposa do pastor que eu não sabia o mandamento de Maria. Então, ela  abriu a Bíblia no capítulo dois do Evangelho de João e mostrou-me o que Maria dissera: “Fazei tudo o que ele vos disser”.

“Carmen, nós, os crentes, cumprimos este mandamento. Maria nos disse para fazermos tudo o que Jesus mandar. Portanto, procuramos fazer tudo o que Jesus mandou”. Aquilo me impressionou deveras, mas, para não me declarar vencida, arrisquei mais uma pergunta: “Diga-me, um católico sincero tem a salvação? Um católico que vai a missa, cumpre todas as ordens da igreja e faz muitas penitências; quando ele morrer, vai direto para o céu?” Dona Blanche, abaixou os olhos, depois fitou-me e disse com firmeza: “Cuidado, Carmen, a religião não salva ninguém, quem salva é Cristo!” Eu estava novamente sem ação. Pensei que ela diria que apenas a sua religião salvaria, mas ela apresentara Cristo como a solução para os meus pecados. Eu não podia contradizê-la; porém, não desejando que ela notasse que eu estava vencida, levantei-me para sair e declarei: “Continuo católica apostólica romana “; mas somente eu sabia como estava meu coração naquele momento. Andando pela rua, eu pensava: “Religião não salva ninguém, quem salva é Cristo”. Essas palavras repercutiam incessantemente em meu coração, onde quer que eu estivesse. Foi realmente uma luta com Deus.

Estava programada uma apresentação teatral em Aparecida do Norte, que reuniria vinte e cinco jovens e crianças, com a finalidade arrecadar dinheiro para ajudar os pobres. Resolvi que, apenas se mudasse de atividade, seria ajudada em minha perplexidade.

Alugamos um ônibus especial e viajamos a Aparecida do Norte. Mesmo no ônibus, eu estava com a Bíblia aberta, lendo o tempo todo.Um jovem bem educado, que era do nosso grupo, estranhou; falamos um pouco sobre a Bíblia, e, no final da conversa, ele concluiu, dizendo: “Sabe de uma coisa, eu também devo ler a Bíblia “. Ao voltar da viagem, percebi que o jovem havia desaparecido de nosso meio. Pouco tempo depois, soube que ele se tornara crente. A essa altura, eu já estava bem perto de conhecer Cristo como o meu único Salvador, pois Deus já havia preparado tudo para esta finalidade.

Isso ocorreu quando fui novamente à casa de Dona Blanche e lhe declarei: “Estou pensando em mudar de cidade. Não vim para ficar em Itajubá. Aqui não tenho paz”. Ela me olhou com os olhos rasos de lágrimas e disse-me: “Carmen, Deus pode abençoar muito os que estudam a sua Palavra e obedecem-na, mas pode também tratar com firmeza aqueles que O rejeitam”. Fiz ainda uma indagação: “Qual o significado daquele versículo da Bíblia que diz: “Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado, mas, para o que blasfemar contra o Espírito Santo, não haverá perdão” (Lucas 12.10). Ela respondeu: “Isso é para os que conhecem a verdade e a rejeitam. Isso é resistir ao Espírito Santo! Para as pessoas que agem assim, não pode haver salvação”. Ela havia falado mais uma vez ao meu coração.

O incêndio

Naquela noite, quando cheguei em casa, Dona Zilá, a senhora com quem eu morava há algum tempo, pediu que eu dormisse em sua casa, visto que seu marido viajara e ela estava grávida. Assim, poderia fazer-lhe companhia, caso ela precisasse de ajuda.

Concordei. Antes, fui ao meu quarto, no fundo do quintal, e verifiquei meu pertences. Ali estava tudo o que eu mais estimava. Tinha uma biblioteca grande com muitos livros que contavam a vida de vários santos que eu amava, e todas as vestimentas que eu usava no teatro para jovens e crianças. Também ali guardava todas as imagens dos santos da minha devoção. Pensei: “Se algum dia eu me tornar crente, terei de abandonar tudo isso”. Ainda, dei comida e água para o meu cãozinho de estimação, que estava com quatro meses de idade e, durante a noite, ficava preso no quarto. Em seguida, fui dormir. Por volta de uma hora da madrugada, fui despertada por Dona Zilá, que me chamava com urgência, a fim de olhar por uma das janelas: “Venha logo!”, disse ela.

Quando cheguei à janela, vi o que restara de meu quartinho, que fora devorado pelo fogo. Meus livros, os rosários, as vestimentas, as imagens dos santos, etc. , tudo estava sendo consumido pelas chamas. Só escapara minha Bíblia, que eu havia levado para ler .

Nada mais eu tinha, além da Bíblia e da própria vida, que fora salva por determinação dos planos divinos, os quais até ali eu ignorava. Naquele instante, pude reconhecer o grande amor de meu Senhor, Jesus Cristo, que há tantos anos vinha me chamando. Meus olhos foram abertos para a luz. Compreendi o que Cristo havia feito na cruz, por mim, bem como a necessidade que tinha de me arrepender e confessá-Lo como meu Salvador pessoal.

Contemplando a destruição daqueles objetos que me prendiam ao passado, ouvi novamente aquele convite de tantos anos atrás: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei!” Diante das chamas, entreguei meu coração ao Senhor Jesus Cristo. Mas achei tão pouco dar somente o meu coração, que disse a Jesus: “Senhor, dou-Te não apenas o meu coração, mas também a minha vida e tudo que possuo, para serem gastos unicamente para Ti! Quero servir-Te até à morte.”

Esqueci-me de tudo; o contato com Deus era tão íntimo, que esqueci do incêndio.

Eu podia falar com Deus! Sentir sua presença! Então, Dona Zilá interrompeu o meu êxtase: “Carmen, vamos apagar o fogo!” Voltei a tomar consciência do incêndio. Depois de tudo acabado, deitei-me outra vez. Não pude dormir! Meu coração estava repleto de amor, de alegria e de paz. Agora eu desfrutava da paz que por tantos anos havia buscado e nunca encontrara!

No dia seguinte, estive novamente com Dona Blanche, esposa do pastor. No entanto, meu orgulho ainda era imenso, e, a despeito de ter-lhe contado tudo sobre o incêndio, não disse que entregara minha vida ao Senhor. Parecia-me muito humilhante, pois na tarde do dia anterior eu havia declarado que continuaria em minha religião e jamais desistiria de minha fé católica. Por fim, não pude mais continuar escondendo a verdade de Dona Blanche e lhe disse: “Esta noite entreguei a minha vida a Jesus Cristo. De hoje em diante sou crente e estou pronta a lutar com vocês em prol do evangelho”.

Grande foi a alegria de Dona Blanche. Mas eu ainda teria de ser mais humilhada, porquanto pedi que ela não contasse o fato a ninguém. No dia em que os católicos soubessem disso, argumentei, haveria muita perseguição e luta.

Continuei dando aulas de catecismo. Permaneci entre as filhas de Maria.

Frequentava a missa, mas não largava a minha Bíblia!

Um dia, um congregado mariano me perguntou por que eu não levava mais o missal para acompanhar a missa. Desse momento em diante, entendi que não poderia mais acompanhar os rituais da igreja católica romana. Sabia o que a Bíblia ensina. Então comecei frequentar as reuniões evangélicas na casa do pastor; ficava ouvindo tudo da sala. Não ia ao templo evangélico, com medo de que alguém me visse, pois isso provocaria comentários. Apesar de sentir que deveria confessar abertamente que me tornara crente, isso parecia além das minhas forças. Minhas amigas me encontravam na rua e diziam: “Você está tão diferente! Na cidade, todos falam que você se tomou crente!” Nessas horas, eu perdia toda a coragem e replicava: “Não, não sou crente. Sou católica apostólica romana”.

Mas logo era invadida por uma profunda tristeza, por não ter sido corajosa para confessar claramente que era crente em Jesus Cristo.

Testemunhando corajosamente

Em certa ocasião, acompanhei duas senhoras crentes à cidade, para ensinar um grupo de crianças. Tão logo chegamos, um grupo de crianças veio correndo abraçar-me, e constatei que ali eu havia dado aulas de catecismo. Fiquei em grande aperto,  especialmente porque a mãe de uma das meninas me perguntou: ” A senhora está virando protestante? Em toda cidade, se comenta isso. Agora mesmo eu vi a senhora andando com os crentes. Por certo a senhora virou crente mesmo”.

Pude apenas responder: “Não, de maneira nenhuma. Sou amiga dos crentes, porque sei que eles não são tão ruins quanto pensava. Mas de maneira nenhuma sou crente! ”

Não terminara de dizer isso, quando senti grande angústia no coração, por haver ocultado uma vez mais a verdade, por negar novamente o nome de Jesus Cristo. Então disse às minhas companheiras crentes: “Continuem. Vou voltar à casa daquela senhora que falou comigo”.

Ao chegar, disse: “Vim pedir perdão à senhora, por uma mentira que acabei de lhe contar”. Ela respondeu: “Mentira!?” “Sim”, repliquei. ” A cidade inteira comenta que sou crente, e até hoje venho mentindo para todos, dizendo que não o sou. Mas a verdade é  que já fui salva pelo Senhor Jesus Cristo! Sou crente, e meu desejo é proclamar o nome de Cristo a toda criatura”.

Ninguém era mais indicada para espalhar a notícia do que aquela senhora! Mas que alívio tive ao fazer aquela confissão! Portanto, aquele foi um dia de grande alegria para mim, pois pela primeira vez pude testemunhar, falando sobre o poder de Jesus Cristo.

A notícia correu pela cidade inteira. Fui visitada por ex-colegas das filhas de Maria. Muitas me abraçaram, chorando, dizendo-se prontas a rezar por mim, a fim de que eu voltasse à Igreja Católica, mas eu lhes respondi: “Jesus disse: ‘Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim‘. Ora, se Jesus é o caminho, para quem irei, senão a Ele? Sinto-me feliz por estar com Cristo”. Assim, repeti aquele versículo por muitas vezes naquela noite, para mostrar que eu realmente era crente em Jesus Cristo.

Tendo a igreja católica tomado conhecimento do que estava acontecendo, marcou uma reunião para tentar me convencer do meu erro, ao deixar a igreja. Fui avisada de que devia comparecer às 20 horas.

Não foi fácil, mas eu fui. Tentei chegar mais cedo, para sentar-me em um cantinho qualquer e ficar bem escondida, mas não deu certo. Tudo me atrasou e cheguei na última hora. O salão estava lotado. Tive de passar por todas aquelas pessoas, que me olhavam com curiosidade. Finalmente fui chamada à frente, e eles fizeram várias perguntas; porém respondi somente com João 14.6: “Ele é o caminho, a verdade, e a vida”. Não havia outro para seguir, e agora eu tinha a Cristo, somente a Cristo. Foi uma grande oportunidade para testemunhar de Cristo a todos os meus queridos amigos que deixei para trás.

Parece ser fácil deixar tudo, mas, humanamente falando, não é; visto que na igreja católica eu tinha muitos amigos — os jovens, as moças do grupo das Filhas de Maria da Juventude Operária Católica; todo o grupo que fazia as peças teatrais, as crianças a quem eu dava as aulas de catecismo, as senhoras do apostolado da oração; enfim, muitas outras amizades, porque sempre fora muito sociável e amava aquelas pessoas. No entanto, era necessário deix-las, porque Cristo me chamara. Ele passou a ser importante para mim; tornou-se o dono de minha vida. Agora minha vida não pertencia mais a mim mesma, e  sim a Ele. Era necessário também confessá-Lo claramente, para que Ele recebesse a glória.

Em meio a lutas, desprezo e sofrimento, Deus utilizou sua Palavra na vida de vários congregados marianos que estudavam a Bíblia comigo. Eles também reconheceram Cristo como seu único Salvador e tornaram-se crentes fiéis ao Senhor. Louvo a Deus por tudo que Ele tem feito, para sua própria honra e glória.

Encontrando antigos amigos

Não esqueço uma coisa maravilhosa que Ele fez. Havia uma senhora paralítica, que por muitos anos não saía da cama. Eu estava sempre com ela, ajudando-a, mas impedindo que aceitasse a Palavra. Depois que me converti, voltei àquela casa com os crentes, dizendo-lhe: “Não sei falar sobre a Palavra de Deus, mas, por favor, falem com ela”. Disse àquela senhora: “Jesus Cristo me salvou e estou seguindo-O de todo o meu coração”.Os olhos daquela paralítica brilharam, e ali, na cama, ela ouviu com gozo a Palavra e foi salva por Cristo. Em pouco tempo depois, ela partiu para a eternidade.

Graças a Deus, pelo fato dela ter sido salva antes de sair desta terra.

No dia seguinte, encontrei uma senhora. Durante muitos anos ela era presidente das filhas de Maria. Agora, estava casada e permanecia muito fiel à igreja católica; era enfermeira na Santa casa de Misericórdia, em Itajubá. Falando-lhe a respeito de Deus e  das Escrituras, essa senhora mostrou-se interessada e disse: “Agora não tenho tempo, venha à minha casa hoje, às 20 horas, assim poderemos conversar com toda a família”. Ela tinha três filhos e uma filha, que, por sua vez, tinha dois filhos; o marido e ela queriam que todos ouvissem.

À noite fui à sua casa. Tive receio de não chegar à hora marcada, visto que pessoas me paravam na rua, a fim de indagar por que eu havia saído do catolicismo. Graças a Deus, às 20 horas, eu estava na casa daquela senhora. Sentados ao redor de uma mesa, toda a família estava esperando-me, e assim começamos a falar sobre a Bíblia. Foi maravilhoso! Conversamos até à meia-noite. Eles também tinham todas as dúvidas que antes eu tivera, e agora podiam ser esclarecidas. Eles começaram a frequentar a igreja evangélica e, em alguns meses, foram batizados.

Houve também o Sr. Tomaz. Ele era congregado mariano, zeloso e muito respeitado por todos; sua vida era cheia de amor, dedicação e fidelidade à Igreja Católica Apostólica Romana. Um dia, quando passava em frente de sua casa, ele e sua esposa convidaram-me a entrar e conversar. Eles fizeram várias perguntas sobre a Bíblia. Eu amei aquela oportunidade, pois tivemos um bom tempo juntos, falando sobre a salvação em Cristo Jesus! Depois de alguns meses, ele e sua esposa entregaram sua vida ao Senhor e foram salvos. Através deles outros congregados renderam-se aos pés de Cristo.

Por causa desses acontecimentos, surgiram grandes dificuldades. Pessoas maltratavam-me, ao encontrarem-se comigo na rua. Porém, mais uma vez a providência do Senhor se revelou em meu favor . Conversei com o pastor Mário, esposo de Dona Blanche, e disse-lhe: “Pastor, um dia o senhor afirmou que estava pronto a ajudar uma pessoa muito esforçada, que estava na congregação, a estudar numa escola evangélica. Naquela ocasião fiquei indignada, pois ainda não pensava em deixar a igreja católica. Mas agora, peço-lhe que me encaminhe a essa escola “.

Assim, o pastor Mário e sua esposa viajaram comigo, levando-me à escola evangélica. Fui apresentada ao diretor, Pastor Paulo, e à sua esposa, Dona Violeta. Eles me acolheram: “Venha! Aqui você não terá muita dificuldade. Deus haverá de ajudá-la. Nós também estamos prontos para ajudá-la em tudo”.

Na escola bíblica

Confesso que, na escola evangélica, tive lutas e dificuldades, por ser crente nova, e mostrei minha inexperiência. Mas, sustentada pelas orações dos irmãos de minha igreja, venci as dificuldades e, pela graça de Deus, terminei o curso. O casal, Pastor Paulo e Dona Violeta, foi grandemente usado por Deus na formação de minha vida espiritual.

Em Junho de 1962, ele e sua esposa, Dona Violeta, saíram daquela escola e foram ao Paraná, com mais um casal, Artêmio e Neta Alexandrina, e mais sete alunos, inclusive eu. Chegando ali, tivemos muitas lutas para estabelecer uma escola bíblica. O tempo e o espaço não nos permite contar em detalhes, mas, para dar uma idéia do que foi aquele começo, digo-lhe que tivemos que furar poços; catar lenha para fazer fogo; cozinhar durante um ano ao ar livre, em um fogão de pedra; plantar nosso próprio alimento, tal como: arroz, feijão, legumes, mandioca, batatas, etc. Tudo isso fazíamos com alegria; ainda tínhamos todos os dias quatro horas de aula, pela manhã, e à noite preparávamos as lições.

Resta uma palavra sobre o treinamento bíblico que recebi naquela escola evangélica. Ela está situada em Eldorado, Marilândia do Sul, no Paraná, sob o nome atual de Instituto Bíblico Maranata. O treinamento ali ministrado é realmente maravilhoso, pois não consta apenas de estudos da Bíblia, mas também de estudos para a vida prática. Muito tempo é dedicado à intimidade com Deus, mediante a oração, e todos aprendem o princípio de viver pela fé.

Depois de formar-me naquela escola, tive de deixar aqueles colegas de trabalho e de luta. Foram dois anos, até completar o curso. Depois, cursei mais dois anos no Instituto Bíblico Peniel. Assim, aquele tempo de amizades e de lutas marcou a minha vida.

Novamente na evangelização

Terminado o curso, estava na hora de sair ao trabalho de evangelização. Viajei para São Carlos, a fim de dar testemunho e ajudar em um acampamento. Lá conheci o Pastor João Stucky, sua esposa, Beatriz, e suas duas filhas, Janete e Judite. Este casal convidou-me para ficar com eles por seis meses, ajudando-os na igreja com os trabalhos de evangelização realizados na cidade.

Visto que sempre amei a evangelização, aceitei de imediato o convite e fui morar

com este casal. Todos os dias levantava cedo, tomava café, apanhava minha sacola com Bíblias e folhetos e saía distribuindo-os ao povo da cidade e arredores. Falava com as pessoas sobre a salvação em Cristo Jesus. Muitas vezes, retornava bem tarde; em outras ocasiões, chegava por volta das 20 horas, à noite. Um dia, quando me preparava para sair, o Pastor João Stucky chamou-me ao seu escritório e perguntou: “A irmã está tendo tempo para ler a Bíblia e orar?” Pensei um pouco e respondi: “Muito pouco”. Ele aconselhou-me: “Seria melhor, se a irmã passasse a manhã aqui, lendo a Bíblia, orando, descansando, e saísse à tarde para evangelizar”. Pensei um pouco, fui para o meu quarto e li a Bíblia até à hora do almoço. Ao sair, por volta das 14 horas, pensei: “Hoje não terei tempo para fazer quase nada”. Com este pensamento, apenas mostrei minha incredulidade. Saí e comecei a entregar alguns folhetos. Depois, fui a um lugar em que nunca estivera. Lá também distribuí vários folhetos. Depois, bati à porta de uma casa. Uma senhora atendeu-me, mas nada queria ouvir e alegou: “Sou católica apostólica romana”. “Bem”, disse eu, “eu também fui católica apostólica romana. Veja! Tenho a Bíblia católica comigo. Você quer vê-la?” Ela, então, abriu a porta, permitindo que eu entrasse.

Passamos aproximadamente três horas conversando sobre a Palavra de Deus. Foi algo maravilhoso. Ela ficou conhecendo verdades bíblicas que jamais tinha ouvido antes. Prometeu que à noite estaria na igreja evangélica, ela e sua família; e todos compareceram. Ela nunca mais deixou de ir à igreja. Alguns meses mais tarde, toda a família abraçou a fé em Jesus Cristo, e foram batizados.

É maravilhoso como podemos aprender essas coisas: o dia em que pensei que não teria oportunidade de falar de Jesus a alguém, foi o dia que o Senhor mais abençoou.

Portanto, louvo a Deus pelas vidas dos missionários, colocados ao meu lado para meu encorajamento e fortalecimento espiritual, a fim de que eu pudesse crescer na fé e ser mais útil na causa de Cristo.

Em busca de novos horizontes

O tempo passou. Já estava na hora de viajar para outros lugares. Antes de viajar, resolvi pedir o batismo por imersão. O Pastor João Stucky batizou-me juntamente com sua filha Judite, no acampamento de São Carlos. Foi também maravilhoso aquele dia.

Saindo das águas, arrumei as minhas malas e continuei a viajar por três anos pelo Brasil, testemunhando e ensinando a Palavra de Deus. Depois de três anos, o Senhor preparou tudo a fim de que eu fosse para São Paulo. Meu objetivo em ir para lá era continuar o trabalho de evangelização e tratar de minha saúde.

Em São Paulo, conheci a família do Dr. Russel Shedd. Eles encaminharam-me à livraria Leitor Cristão, dirigida pelo Pastor Ricardo Denham. Este servo de Deus acolheu- me, ensinou-me a fazer o trabalho e ofereceu-me muito apoio. Uma das coisas que muito me impressionou, na vida do Pastor Ricardo, foi a sua maneira de evangelizar. Ele tinha um sorriso nos lábios e tratava as pessoas com misericórdia e respeito. Isso muito me impressionou.

Em 1968, chegou a São Paulo mais uma família de missionários, Sr. Earl Mets, sua esposa, Joana, e seus três filhos, Diana, Susana e Estêvão. Naquela época, eu residia em um apartamento com uma amiga. Eles me convidaram para morar com eles e ajudá-los no trabalho de evangelização. Desejavam começar uma reunião em sua casa. Então, fui morar com essa família; trabalhamos juntos por muito tempo, evangelizando e ensinando a Palavra de Deus.

Em 1970, eles foram aos Estados Unidos levando-me em sua companhia. Tinham o objetivo de que eu contasse minha vida nas igrejas por onde passariam, a fim de que outras pessoas fossem beneficiadas pelo poder de Deus.

Chegando aos Estados Unidos, viajamos bastante durante um ano, testemunhando em igrejas e acampamentos, ensinando sempre a Palavra de Deus. Sempre ouvira dizer que nos Estados Unidos existe muito racismo. Mas, foi impressionante para mim haver estado duas vezes naquele país, sendo tratada com muito carinho. Todos com quem me relacionei trataram-me com respeito e dignidade. Agradeço a Deus pela vida de cada americano que cooperou para que me sentisse à vontade, enquanto compartilhava a Palavra de Deus.

Retornamos ao Brasil em 1972. Continuamos nosso trabalho aqui, ensinando a Palavra de Deus e preparando pessoas para servi-Lo. Por 28 anos, esta tem sido a minha tarefa juntamente com este casal. Ainda faço algumas viagens, visito algumas igrejas e dirijo reuniões bíblicas. Porém, tenho passado a maior parte do tempo em São Paulo.

E a família, como está?

Talvez você esteja pensando: “E a família dela, onde está?” Graças a Deus, minha família está bem.

Quando meus familiares tomaram conhecimento de minha salvação em Jesus, ficaram muito tristes e disseram: “Você abandonou nossa religião, deixou Nossa Senhora de Fátima”. Mas pedi orações em favor deles, e os crentes dobravam os joelhos, suplicando por minha família, a fim de que Deus transformasse seus corações. Os primeiros a serem salvos foram minha irmã mais velha, Maria, e minha sobrinha, Vera Lúcia. Depois foi minha irmã Sílvia, que abandonou o centro espírita, ao conhecer Jesus como seu Salvador . Ela procurava por algo que satisfizesse seu coração e, sem encontrar

, frequentava o espiritismo. Após ouvir a Palavra de Deus e passar por muitas lutas, ela reconheceu o seu erro e prostrou-se diante de Jesus como o seu único Salvador. Foi batizada, serviu o Senhor por muitos anos, até que ficou muito doente e, com câncer, veio a falecer. Há aproximadamente oito anos ela está com o Senhor .

Louvo a Deus pelas vidas de meus dois sobrinhos, Ronaldo e Jussara; eles entregaram suas jovens vidas ao Senhor Jesus. Depois sua mãe, Aidê, minha cunhada, e, finalmente, meu irmão mais novo, também reconheceram Cristo como seu Salvador.

Assim, toda a família está reunida no Senhor, aos pés da cruz, servindo a Deus.

Finalmente, em segurança!

Talvez observaram que nesse testemunho de minha vida houve bastante falta de segurança em minhas decisões. Sempre estive procurando um padre, a fim de perguntar o que devia e o que não devia fazer. Isso é normal, quando alguém passa tantos anos no convento quanto eu passei, sempre ouvindo a Superiora dizer: “Somente eu posso pensar; eu decido e mais ninguém. Cale a boca, somente eu falo”. Com o tempo, a mente sofre uma lavagem cerebral, sendo quase impossível começarmos a tomar nossas próprias decisões.

Ao enfrentarmos o mundo fora do convento, geralmente encontramos a maldade. As pessoas nos enganam, e acreditamos em suas mentiras. A abundante falta de segurança em nós mesmas torna difícil enfrentarmos o mundo novamente. Isso me levava a pensar: “Será que devo voltar ao convento?” Na verdade, eu queria fugir do mundo. Estar no convento não era bom, mas fora eu não sabia como viver bem. Era como um passarinho com as asas danificadas — não conseguia voar sozinha. Esta foi uma grande dificuldade para minha vida: a insegurança que acompanha todas as ex-freiras, após viverem parte de suas vidas em um convento.

Um dia, fui ao médico e, na sala de espera, sentei-me ao lado de uma psicóloga.

Começamos a conversar; falei-lhe sobre minha vida com o Senhor Jesus. Ela ficou impressionada e perguntou-me: “Você procurou algum psiquiatra ou psicólogo para ajudá-la?” “Não! eu não procurei”, respondi. “Mas, como você venceu?”, ela retrucou. Disse: “Somente Cristo, com sua graça e sua Palavra, me ajudou a vencer esses problemas”. Ela ficou realmente impressionada.

Na época em que trabalhava na livraria O Leitor Cristão, uma freira entrou ali e disse-me que havia lido o livro “Buscando” (a história de minha vida que a livraria havia editado). Essa leitura atingira o seu coração, e ela rogou que eu a ajudasse a sair do convento. Após conversar com o Sr. Mets, ele abriu a sua casa para que ela fosse morar com eles, por algum tempo. Preparei tudo em casa e fui buscá-la. Não foi fácil! Tivemos vários problemas, mas, graças a Deus, consegui levá-la para casa. A sua insegurança é algo difícil de descrever. Ela havia ficado mais tempo no convento do que eu. Entrou para o convento com 20 anos de idade e saiu somente aos 57 anos; ficara 37 anos no convento. Ela havia sido professora de sete matérias e estava no limite de um esgotamento nervoso. Sua vida psicológica estava gravemente danificada e somente Deus poderia restaurá-la.

Depois de muita luta, graças a Deus, a irmã Rute entregou sua vida aos cuidados de Jesus e reconheceu-O como seu Salvador. Viajamos juntas, falando sobre o Senhor Jesus Cristo nas igrejas. Depois, nos separamos para viajar, e nossos caminhos tomaram rumo diferente. Louvo ao Senhor, porque mais esta alma foi liberta do poder das trevas e trazida à maravilhosa luz de Cristo.

Este é apenas um resumo de minha vida e daquilo que o Senhor fez por mim.

Finalizando, quero dizer-lhe que, se estiver buscando, de todo o coração, o Senhor Jesus, certamente Ele fará o mesmo a você, pois Ele disse:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.

Mateus 11.28

 

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